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Ultra Trail Cidade de Abrantes 100/100

  • 12 de dez. de 2016
  • 5 min de leitura

Hobalhamadeus, que é isto?

Nem sei bem por onde começar, se calhar vou mesmo começar por aquilo que era para ter feito e não o fiz que era descansar após a prova em solo duro…bem, não tão duro é claro pois parece que havia uns colchões de desporto dentro de tendas militares de 4 arcos.

Levo, não levo saco cama. Levo, não levo almofada. Levo, não levo algo confortável e parecido com pijama, mas de características desportivas para não parecer muito fofinho hahahaha. Bem, a realidade é que levei isso tudo e um bloco e esferográfica para deitado começar a escrever este texto, e um comprimido para as dores e barras para comer e água…tudo e tudo para eu ter umas boas horas de descanso após chegar todo rebentadinho das canetas. Mas outra realidade aconteceu e com a carga que eu estava de adrenalina no corpo e após ter tomado um bom e longo banho quente no Estádio Municipal de Abrantes e depois ainda de ter jantado decidi que o melhor seria ir para casa. Não me doía nada, não tinha sono…

Hobalhamadeus…

Era a noite de 8 para 9 de dezembro e eu a pensar que o melhor seria deitar-me um pouco mais cedo para pôr umas boas horas de sono em dia pois faria-me falta para a noite seguinte durante as longas horas acordado na prova. E vai daí…volta daqui, volta dalí, vem o calor, chega o frio…dormir, está quieto, nada! Parece que a coisa estava a tomar forma toca o despertador para o trabalho…sim, porque apesar de eu ter ficado em casa nesse dia houve quem tivesse de ir trabalhar…

Depois de a minha mulher ter saído para o trabalho e a minha filha para a escola fico sozinho e penso em me deitar um pouco para aproveitar, mas repentinamente lembro-me que está a chegar o gás que encomendei e nem tinha dinheiro em casa e que ainda nem sequer tinha preparado as “traquitanas” para levar para a prova em Abrantes. Até fiquei com a cabeça a rodopiar de tanto stress ao mesmo tempo…respirei fundo e fui tratar das coisas todas…o meu descanso resumiu-se a despachar géis, barras, roupas, frontais, sacos…tudo e tudo que eu tinha direito e pensava que me seria necessário para o êxito (ou não) da minha resistência.

Prontinho, cerca das 15 horas e já com almoço a marinar no estômago lá vou eu todo contente descansar uma ou duas horitas…ia…ia…mas não fui porque ora toca o telefone a perguntarem se eu tinha descansado alguma coisa, ou a minha filhota pede para a ir buscar à escola…pronto, está feito…descanso daqui a dois dias…hahaha

Depois de ter jantado em casa com a família, saio cerca das 20:30 em direção ao Parque Tecnológico de Abrantes…

Chego tranquilo e cedo e começo logo a ver amigos destas andanças, o Luis Silva, a Virgínia, o Luís Mota, o meu amigo Félix, o Clemente, a Lina, o Paulo Roque, a Teresa, o Omar Garcia, o Joel, o Miguel Lopes, o Carlos Coelho, outro que nem me lembro do nome e outros ainda que certamente me esqueci de mencionar…muitos e muitos amigos. Cumprimentos e abraços feitos, dorsal levantado, equipamento vestido, fotos tiradas, vou aguardando o início das hostilidades hahahah

Dia 10 de dezembro, 01 horas…partidaaaaaaaaaa

Aplausos e palavras de incentivo e toca a desfilar por aquelas ruas até poucas centenas de metros à frente começarmos a subir, subir até à árvore de natal de Abrantes…deixei de ouvir a malta a queixar-se do frio…hehehe

Começou então a invasão dos atletas pelas encostas da serra e freguesias de Abrantes com as suas luzes acesas.

Tivemos 9 abastecimentos entre a partida e a chegada com 3 zonas de transição (uma espécie de base de vida), das quais na ZT2 tinha uma mochila com roupa seca e mais uns géis e barras e isotónico. E que bem me soube esta mudança de roupa. De referir ainda que em cada ZT havia sopa de legumes entre outras coisas que infelizmente começaram a ficar cada vez mais raras e eu era dos atletas do meio…coitados de quem chegou mais tarde…Esta foi uma evidência constatada por muita gente, deverá a organização corrigir este facto para não acontecer numa segunda edição. Foram mesmo só estes pormenores negativos…de resto tudo muito prestável e simpático, apenas este abastecimento estava fraco e “com pouca vontade” de recolocação de alimentos…

Aproveitei sempre para me hidratar bem e frequentemente, comer bem para manter a energia necessária, divertir-me no meio de sabe-se lá onde, pois até cerca das 7h30m era escuro e só via onde as luzes alcançavam e o restante tempo e distância andei sempre sozinho tirando um ou outro que me passava ou eu passava por ele…conversava ligeiramente com a malta nos abastecimentos e nas 3 ZT descansei 15m na primeira, 25m na segunda, 15m na terceira. Os restantes PAC foram só para comer algo e beber e toca a andar…

Durante todo o percurso pensei sempre que não poderia exagerar no esforço (que já não era muito hehehe) para aguentar até ao fim e tentar pelo menos fazer as 20 horas de prova, era esse o meu objetivo!

Mas pé aqui, pé acolá e bastões no terreno…avançando em frente a correr, a andar, a “bastonar”…lá fui avançando e sentindo-me sempre bem, muito otimista. Aliás confesso que à medida que avançava me sentia cada vez mais confiante e já fazia contas de cabeça com o tempo despendido e o provável tempo que ainda faltaria, as médias e que conseguiria fazer um bom e aceitável tempo, um bocado ainda abaixo do que eu inicialmente previra.

A partir dos 60 km comecei a sentir muito bem e com boa resistência de modo que continuei a progredir satisfeito e confiante. Aproveitava as longas subidas para avançar, que com a ajuda dos bastões, o esforço era distribuído pelos membros, o que facilitava e dava novo ânimo.

Às páginas tantas atingi o última abastecimento antes do fim, estava com cerca de 95 km feitos…era só mais um tirinho…hahahaha

Oiço uma voz e vejo alguns elementos da organização/voluntários a perguntarem-me quanto é que marcava o meu relógio, aos quais eu respondi: 100,800 km. Então está quase, responderam eles, só falta mais 1 km e é só deslizar, tudo plano, coragem!

Não foi 1 km a mais, mas foram quase 2…mas realmente a sensação de sentir que estava prestes a terminar, o olhar para a meta a pouco mais de 20 mts, os aplausos de quem estava a ver, as palavras de incentivo, tudo isto me deu um grande orgulho em mim próprio por ter conseguido terminar o que eu esperava tentar!

Foram uns orgulhosos 102,500 km em 15 horas e 45 minutos!

Não é um tempo de grande nível atlético, mas dentro das minhas capacidades é um excelente tempo para a distância. Distância esta que nunca tinha feito, a maior tinha sido de 60 km em São Mamede.

Terminei!

Depois de me pedirem para tirar foto e entregar a simbólica medalha de finisher e antes ainda de beber alguma coisa telefonei logo para casa a dizer: “Estou vivo e muito bem”, apesar de ter mandado duas sms ao longo do percurso e também estava a ser seguido em casa pela aplicação “Followme”…

Agora sim…respiro fundo, sinto-me realmente um Ultra Runner!

Todo este esforço e dedicação para além de um prazer pessoal foi dedicado à minha esposa e filha. À minha esposa que me tem aturado nesta coisa de correrias e pela paciência para comigo e à minha filha porque assim ele tem motivos para me chamar de "és mesmo maluquinho"...hahaha

Hobalhamadeus!

 
 
 

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